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11 de março de 2010

jardins e bancos

O jardim acenou-me e eu correspondi-lhe um sorriso.
Apesar de lhe arrancar trevos sempre que a sorte me é escassa e a esperança disparatada, ele continua a dar-me os bons dias.Os jardins são educados.
Continuo pela estreita rua de sempre, ainda amo as manhãs, apesar de não me preencherem a alma como outrora.
O café da esquina convida-me a entrar. O ar fala-me das torradas e do leite quente, mas estes pés jamais desprezam a escassez do tempo…
Cruzo-me com seres que me são idênticos, não os conheço, mas adivinho-lhes a vida através das expressões faciais. É um jogo de suposições a que eu não lhe resisto.

Quem aprecia o cinzento, fica-se pelos bancos de jardim.
Se me disponibilizassem tempo, eu certamente me sentaria naquele, consumido pela erosão dos anos, e me cobriria toda em cinzas.
Mas estes pés continuam incapazes de me levar onde pretendo…
Apressam-se em apanhar o autocarro (eles injectam-me sempre neste circulo…), ignorando os meus profundos desejos de dispersão.
Entretanto os céus estouram em água, (o Inverno tem sido duro) e eu aproveito para falar à chuva, mesmo que não haja nenhum motivo para o fazer.
Parece-me que tenho o hábito das coisas desnecessárias.
Talvez, um dia, estes mesmos pés me levem daqui para fora...?
(Não consigo compreender, no entanto, se isso seria atender aos meus anseios, ou fugir-lhes mais uma vez…)


Raquel Dias
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