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12 de janeiro de 2012

Tenho esperado a neve como quem espera uma carta. Mas não uma carta qualquer.

Espero-a como quem espera uma linha final, um parágrafo revelador de todo um propósito existencial: afinal que faço eu aqui?
Passam-se dias a fio, num tédio inconsolável de ver sempre o mesmo céu para lá da mesma janela. Não há neve que caia ou carta que chegue ao meu velho endereço.
Talvez Deus se tenha esquecido de mim. Talvez…
Quão miserável e insignificante é a vida que levamos dentro de quatro paredes! - E vou meditando sobre isto deitada ao contrário na cama: pés na almofada, cabeça prestes a tombar no soalho, olhos alienados.
Por vezes ainda espreito pelo orifício das portas, na esperança de me espantar com qualquer coisa do outro lado; mas sempre encontro os mesmos vultos, o mesmo cheiro a mofo e a decomposição dos dias.
Felizmente a noite sempre cai mais cedo do que vou supondo.
Quando desperto do coma induzido por mais um livro filosófico (daqueles que me atiram para o abismo sem indulgência), reparo que a luz das ruas já é artificial.
Então alegro-me um pouco, escolho uma música tranquila, abstraio-me das minhas inquietações existenciais e danço sozinha pela casa.
Mas sempre a melancolia chega, quando sinto o frio penetrar-me os ossos, e constato que ainda não nevou.
Pela manhã o carteiro sorri-me condescendente proclamando “não há correspondência para si”. Ora ai está uma verdade absoluta, não há correspondência para mim. Não há nada que me corresponda ou que sequer me responda por entre estas paredes.
Talvez um dia pegue no telefone e digite um número à sorte, talvez haja geada por essa altura…



Raquel Dias
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