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9 de maio de 2012

na certeza do que é incerto e do que nos mata ao amanhecer

E,


como expressar tudo isto, quanta contradição,
falo de um desejo, que às tantas se esvanece um pouco,
mais a cada dia, e regressa em ondas intensas quando surges
tão só, tão grave, bonito como te sabes,
até que a única coisa a dissipar é o desvanecimento desonesto
a que te quis sujeitar, sem sucesso,
persigo-te, devoro-te, na fecunda imaginação, uma vez e outra,
deixo-o transparecer ao mundo
só me falta gritar esta bomba-relógio
e já sinto o teu sabor
fecho os olhos, (que a música me acuda!)
quero-te tão perto quanto tão longe, e no entanto,
só, grave, bonito como te sabes
olhas-me e esperas-me, e o momento é este, é agora,
agora ou sabe-se lá, nunca mais,
(como declinar o desejado?) e a ironia a fazer-me sorrir,
eu tinha jurado, eu tinha escrito,
que jamais me voltarias a ser e apesar disso,
lá estava eu, a caminhar na tua direção, a sorrir,
sem noção, sem um propósito, temendo as desordens de sempre,
até que me deste a mão, e agora como explicar tudo isto,
foi a música, o sorriso,
frágil repetição de um passado que ambos evocamos,
que ambos alteramos na última linha,
estamos abraçados pelas ruas, podíamos estar apaixonados,
e já sinto o teu sabor
a atravessar a noite tranquila como um tiro certeiro
não sei onde, não sei dize-lo, ou saberei mas não devo,
misto de pele e luz vaga amálgama de nós,
 improváveis e quiçá designados,
quiçá uma noite mais,
ou noites a mais e tudo desata
na certeza do que é incerto e do que nos mata ao amanhecer.


Raquel Dias
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