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24 de novembro de 2012

linhas de contra-senso: viaggio in Italia - parte 2

De regresso a casa, ao pequeno quarto de paredes azuis, preparei-me para enfrentar as consequências bastante óbvias.
Não só a conta bancária havia sofrido um evidente desfalque, como também eu me sentia diminuta, perto de metade.
Deixei a mala aberta num canto e durante três dias ignorei o seu conteúdo, esqueci-me dos postais, da roupa por lavar, do perfume que comprei no aeroporto.
Costuma-se dizer, e é bem certo, que após um cume de euforia as coisas tendem a cair estrondosamente, atingindo por vezes valores negativos - não que seja o caso - mas definitivamente o pináculo ficara em Itália. Agora deparo-me com uma infinita planície.
Rumo a Barcelona, novamente num voo lowcoast, nenhum homem de gravata se sentou à minha direita. Na verdade, os acentos estavam livres e o avião quase desértico.
Incapaz de suportar a venda de cosmética e cigarros electrónicos, senti-me retroceder lentamente ao meu eu, à minha consistência isenta de distorções ou hipérboles apaixonadas.

Hoje finalmente atrevi-me a tirar da mala o envelope dos postais – que substituem terrivelmente as fotografias que teria tirado – e detenho-me na Ponte Vecchio.
É uma imagem muito típica e bastante poetizada: o céu é de um azul arroxado muito intenso e a ponte, já relativamente iluminada em tons amarelo-torrado, reflecte-se no Arno em contornos fantasmagóricos. Sobrepostas sem danificar o espelho aquático, letras itálicas fazem sobressair o nome Firenze.
No verso não está nada escrito. É um postal endereçado à minha inevitável saudade. Segue-se uma imagem da catedral Santa Maria di Fiori, que brota do cume da cidade exibindo aos céus a sua majestosa cúpula.
No seu interior, o Duomo está revestido por pinturas de Giorgio Vasari e Federico Zuccari que representam o Juízo Final e cuja minuciosidade faz com que se perdoe a fatigante subida rumo ao topo.

Após revisar toda a colecção – ao todo comprei 8 – fito a minha Canon e aproveito para fazer-lhe um pedido de desculpas oficial. Apesar de bonitos, os postais são corriqueiros. Captam os pontos turísticos na perfeição mas não agarram os pormenores ou a essência da cidade.

No dia da minha chegada, já se adivinhando a noite, atravessei o coração de Firenze, pressentido, no entanto, que era a cidade que me perfurava o âmago. Tudo se me afigurava mais fabuloso que possível; não só saboreei o romance clássico, a bella vita italiana e a briza mediterrânea, como também a certeza, a inabalável convicção de que pertencia.
Apesar de nunca ter estado na Piazza della Signora, vi-a e percorri-a como se a minha janela para lá se abrisse todas as manhãs. Na praça estão dispostas algumas estátuas, incluído a famosa de Perseo, da autoria de Benvenuto Cellini. Nessa noite tive o prazer de conhecer Matteo Sacchetti, florentino de gema e licenciado em Storia dell'Arte, que me explicou que as estátuas de bronze, na altura, eram feitas por partes, pedaço a pedaço. Os artistas fundiam o bronze e colocavam as frações numa espécie de molde, onde finalmente se estabelecia a obra completa. Cellini, ao contrário da norma, fez Perseu de uma só vez. Nenhum artista até então havia levado a cabo tal atrevimento.
Agora, de volta ao pequeno quarto das paredes azuis, penso em Cellini com uma estranha empatia. 
Não porque me considere a pioneira no que quer que seja, mas pela questão da audácia - pela constatação de que não nos devemos deixar ficar pela metade quando somos capazes do todo.




Raquel Dias

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