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26 de novembro de 2012

linhas de contra-senso: viaggio in italia - parte 3


Malcontenti. Este é o improvável nome de uma rua florentina, situada precisamente no centro histórico. Matteo fez questão de levar-nos até lá e contar-nos a origem do nome. 
Aparentemente em Itália é frequente que as ruas sejam baptizadas com o nome de famílias populares que lá viveram ou de profissões que lá se estabeleciam; contudo este não é o caso.
Esta determinada rua fazia parte do itinerário pelo qual eram levados os condenados à morte no dia das execuções. Quem assistia murmurava: i malcontenti…
Matteo contou-nos imensas histórias como esta, e, pelo pasmo geral, compreendi que os próprios florentinos desconheciam muitas das lendas da sua cidade.

Horas depois, despedimo-nos junto à Opera di Santa Croce – outro fabuloso edifício gótico – com a promessa de que os receberia a todos em Barcelona.
Estou ciente de que o mais provável é nunca mais voltar a vê-los - e apesar deste facto não me deixar feliz, não é uma ideia que me cause muito pesar.
Com o passar dos anos, e sobretudo com o saltitar de sítio em sítio, acostumei-me à efemeridade das próprias relações. As pessoas vêm e vão, algumas esquecem-se rapidamente, outras tornam-se memoráveis. A questão é: quantas delas são essenciais?
Enquanto sobrevoava França, ainda de olhos húmidos, não fui capaz de conceber esta realidade. Mas hoje, de pés assentes na terra, é algo que rapidamente compreendo e aceito.

Agora, de volta ao quotidiano, concluo as recordações. Penso na origem de toda esta loucura e assoma-me uma última lembrança...
Na véspera da partida, subindo a Via de Benci, pairavam pelo ar as palavras de Claudio Villa,
Firenze stanotte sei bella sotto un manto di stelle… (e eu desconfio que apenas nós dois as conseguiamos escutar, 
amore mio...)


Um adeus que se perpetuará em reticências...



Raquel Dias
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