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30 de dezembro de 2012

Cloud Atlas, um magnífico pot-pourri




Poderia descrever-se abreviadamente como filme-puzzle, contudo, uma denominação tão pobre não lhe faria justiça. Cloud Atlas envolve muito mais do que o que a própria história exibe. Trata-se de uma cadeia de enigmas interrelacionados cujo desvendamento não é claro. Requer não só muita atenção – já que cada detalhe é fulcral e pouco se pode considerar adorno dispensável - como uma imensa reflexão (durante e após).
As seis histórias, que são apresentadas através de uma cronologia completamente fragmentada, tratam, em última instância, da reencarnação e da teoria da causa-efeito. Em três horas o espectador é confrontado com distantes realidades, épocas, histórias, que não poderiam, no entanto, estar mais relacionadas e condicionadas umas pelas outras. O espaço é algo difuso mas é o tempo, essa dimensão que se nos apresenta tão domesticável pelo relógio, que mais caos instala na hora de compreender o filme. A conexão entre os antepassados e os descendentes é a chave e simultaneamente o mistério derradeiro. Eis a prova de que a criatividade não conhece limites, mesmo num trajeto aparentemente circular.
Tendo em consideração os realizadores, não é de espantar que as cenas futuristas remetam para a trilogia de Matrix, e que o ambiente burguês e voluptuoso traga vagas memórias de O Perfume. De certo modo, talvez assim se justifique a presença de elementos fortemente relacionados com o espiritualismo e a metafísica, como com a física, a teoria de que “algo tão pequeno como o voo de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo”.
Num filme que se apresenta como um zapping constante, a narrativa é apontada como principal motivo de enaltecimento. Contudo, não se pode descuidar a formidável fotografia, maquilhagem, e direção artística. A banda sonora, e obviamente o The Cloud Atlas Sextet, que genialmente condensa a ideia do filme, são igualmente dignos de menção.
Cloud Atlas, baseado na homónima e reconhecida obra de David Mitchell, merece ser revisto tantas vezes quanto necessárias, seja para auxiliar a compreensão ou simplesmente para satisfazer a sede de consumo de arte – no sentido mais absoluto e nobre da palavra.


Raquel Dias

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