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10 de janeiro de 2017

às vezes é preciso sacudir a areia. cair nas teias de uma almofada morna. esquecer.



o inverno contamina a praia.
chove devagar, há quem queira ficar na areia e quem queira morrer em teias de água. a mágoa sobrevoa os corpos como um bando de corvos esfomeados. cansados, os peixes deixam-se voar, sacudidos do mar a cada onda enraivecida. a ferida dos lábios volta a abrir-se.
lembra-te: a água da chuva purifica. a água do mar cura.
o coração bate depressa - é nesta praia que o mundo desvanece e é nesta prece que eu sucumbo: na casualidade artificial de encontrar-te  p r e c i s a m e n t e  aqui.
hoje preciso de ti, de (re)inventar-te num inverno do qual não faço parte.
espero a neve no areal. espero que o sal dissolva a mente. há gente que morre em teias de água em busca de uma mágoa menor.
(e quem pode culpá-los?)
as gaivotas cantam-me ao ouvido que um amor corrompido não é mais amor. sinto uma estranha dor nos dentes, quero gritar-te palavras indecentes numa língua que não conheces.
mas já o sol cai nas profundezas juntamente com a euforia - amanhã é outro dia. regresso a casa - à minha verdadeira casa - e adormeço no começo de um livro. às vezes é preciso sacudir a areia. cair nas teias de uma almofada morna. esquecer.

Raquel Dias
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