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13 de fevereiro de 2011

da banalidade.

A banalidade de um ser começa no próprio nome e finda com a insignificância da sua morte, geralmente apelidada de “natural”. O tipo já era bastante velho, tinha uns 90 e tal. Morreu durante o sono.
Chamava-se (admirem-se) João.
Ou talvez fosse Pedro?

Era o 4º na lista alfabética da turma da 4º classe. E do 5º. E do 6º… E era precisamente o 392465º João ou Pedro que a empresa contratava.
Certo dia conheceu a Ana, imagine-se, no café onde a pobre trabalhava desde tenra idade.
Casaram-se na igreja, como bons cristãos, prometendo amar-se e respeitar-se, e toda aquela lengalenga absurda que muitas vezes acaba em divórcio.
Não foi o caso, contudo.
A pobre Ana (pobre não vem ao acaso, note-se) nunca suspeitou sequer que o filho da mãe do seu marido, o vulgar João ou Pedro, lambuzava com o mesmo empenho os seios da vizinha do 4º esquerdo.
Quando completaram 5 anos de casados decidiram ir viajar. As poupanças traduziram-se num infeliz passeio pelo norte do país e a duas pensões medíocres.
Eram felizes.
Na trivialidade, na rotina, nos enganos e desenganos, o casal mais provável e entediante, era de facto feliz.
No seio de tanta felicidade, nasceu o primeiro rebento, baptizado muito dignamente com o nome do pai.
Foi precisamente nesta fase que o caso extra-conjugal expirou e o casal manteve-se mutuamente fiel até ao sono fatal de João. Ou de Pedro. Tanto faz.
A criancinha era a 4º do mesmo nome na turma do 4º ano.
Casou aos 26. Teve, por sua vez, dois filhos. Julgo, no entanto, que nenhum deles herdou uma denominação tão banal quanto a do pai e avós. (Isto porque a mãe se chamava Teresa. Menos mal.)
Envelheceram. Continuaram felizes.
Apareceram as primeiras rugas. A osteoporose. A menopausa. O vinho tinto substituiu a água. A barriga cresceu, o peito descaiu.
Eram dois velhos acabados, a viver na mesma casa, bebendo dos mesmos copos, sentados no mesmo sofá dos saldos, com os mesmos estúpidos nomes.
Até que João decidiu ir dormir e nunca mais acordou.

Então, certa manhã, antes de iniciar a rotina entranhada, Ana perguntou-se como teria sido a sua vida se se chamasse Florentina. Ou Ana Florentina.


RaquelDias

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