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12 de fevereiro de 2011

pode-se dizer que é coisa rara.

Dou por mim frequentemente arrebatada por títulos. Simples títulos - aquela ideia que se exprime tão sinteticamente no começo da folha.
O curioso acerca dos títulos é que geralmente são escritos no final do trabalho e são justamente a primeira coisa com que o leitor contacta.
Assemelham-se a uma conclusão ou epifania, carregando em si o peso da primeira impressão, o ofício de cativar e informar, uma espécie de “vamos falar sobre…” embora muitas vezes o título se refira a alhos e o trabalho a noz de galha (por uma questão de estética narrativa, procurei um sinónimo de bugalho).
Um título é muitas vezes o suficiente para optar por um filme, por um livro, por um artigo, entre outras milhentas coisas. Ou seja, recai sobre ele uma responsabilidade titânica.
Muitos poetas, sim, sobretudo poetas, cientes de tamanho compromisso, evitaram e continuam a evitar a urgência (se é que é este o substantivo adequado) de condensar as suas criações numa arriscada linha.
Seja como for, parece-me que o público em geral não confere o devido valor aos títulos.
Admito que eu os sobrevalorizo (estou seriamente a pensar em iniciar uma colecção de títulos. Parece-lhe demasiado louco? Imagine, uma infinda lista dos mais simples, rebuscados, criativos e insonsos títulos que vagueiam pelo mundo, esperançosos de serem suficientemente aprazíveis…)
Este fascínio quase inexplicável que nutro pelos títulos fundamenta-se ainda no facto de que despontam em mim a urgência de cria-los.
O contacto com a originalidade de determinados títulos transforma-me numa verdadeira “máquina” de brincar com palavras, sem que, no entanto, correspondam a qualquer tipo de conteúdo.
Assim, acabo por criar linhas soltas, sem qualquer sentido ou motivo, apenas pelo prazer de me considerar capaz de alguma… criatividade (o que para mim é uma preciosa dádiva, compreende?)
No fundo, trata-se de uma necessidade inata de criar qualquer coisa, por mais desnecessária que seja (e toda a arte é completamente inútil, não é, meu caro Oscar Wilde?), apenas para matar a sede. A sede da transcendência.
Trata-se de um poder muito amargo, sabe…
É difícil manter o ritmo; ora se é abruptamente invadido por uma onda de fertilidade criativa, ora se emerge num buraco negro (no meu caso trata-se de um buraco colorido, porque as trevas sempre me contam histórias ao ouvido), e por muito que se tente, por muito que a caneta queira e o papel deseje, não sai nada. A não ser, ocasionalmente, títulos.
E quem diria que os títulos têm tanto potencial de discussão ou reflexão?
Imagine, eu podia estar a discursar tudo isto num café e tornar esta “análise” um pouco mais completa e quiçá interessante.
Mas agora vou directa ao que interessa, ao porquê destas linhas e sobretudo… ao porquê do título.
O meu objectivo é falar de inspiração – dessa coisa rara.
À primeira vista parece tratar-se de uma coincidência fabulosa de inúmeros e variados factores, que vão desde a onda perfeita que eclode no preciso momento em que o sol se afunda no horizonte ao velho devorado pela solidão que apodrece num banco de jardim.
Mas a inspiração não é linear, não obedece a nenhuma regra – é apenas dotada de vontade própria.
Sabe, a inspiração tem sido uma verdadeira sacana para mim.
(E parece-me que se ofende facilmente, pois estou retida nesta frase há já mais de 10 minutos…)
Lá está. A vontade própria. E a repetição de uma ideia na tentativa de prosseguir.
Acabo por considerar-me escrava da inspiração.
A nossa relação é bastante tempestuosa. Escassas são as vezes que surge, e ainda mais escassas são as vezes em que a sua aparição dá frutos.
Se me perguntassem “Mas onde é que vai buscar a inspiração?”, eu acabaria por sorrir e responder algo como “Mais me parece que ela é que me vem buscar a mim”.
É que sabe, eu já perdi a conta das paisagens estupendas que vi, da peculiaridade das pessoas com que me cruzei e observei, e até já esgotei todo o meu passado e todas as minhas feridas …
Como eu invejo os que escrevem sobre as flores, sobre os sorrisos, sobre os amantes…
Como eu invejo os que escrevem para o Mundo, para ninguém.
Hoje decidi escrever para si porque nunca tinha experimentado escrever para alguém mais inteligente.
Estou habituada ao tom coloquial, de facto, mas nunca me pareceu que me compreendessem. Talvez tenha andado a falar com as pessoas erradas.
Hoje comprei um livro de pequenas reflexões, e acho que os títulos me ajudaram.
Lá está, há sempre uma maneira de contornar os obstáculos. Se a inspiração não surge, à que força-la. Caçar com gato, não é assim que se diz?
Contemplei mais uma folha em branco e redigi um título, meio tonto. Mas desobedeci ao hábito de finda-la assim, e escrevi.
E fui escrevendo… Usei os ditos títulos.
Imagina-se o meu desespero.
Vou tentar justificar-me, certamente que irá compreender: eu preciso deste poder sublime, preciso de escrever. Se não o fizer, desconheço-me.
Perco-me.
(Mas não tenciono envergar por aí, seria expor-me demasiado, não me leve a mal…)

Será então o momento de colocar um ponto final definitivo a esta reflexão?
(Deixe-me só acrescentar que conseguir escrever duas páginas, nos tempos que correm… pode-se dizer que é coisa rara.)


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Raquel Dias
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