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9 de maio de 2011

casaco verde musgo



Conheço um indivíduo extraordinário.
Fuma cachimbo ao fim da tarde enquanto se deleita com grandes autores, grandes livros e ideias.
Está hospedado num arcaico motel, num quarto pálido com vista para o rio.
Por vezes dá consigo a deambular pelas ruelas, absorto num pensamento indeterminado, fugindo à própria existência – encontrando refúgio nas paredes desbotadas, nas janelas entreabertas e cortinados esvoaçantes – fugindo à saturação do Mundo.
Diz-me que aprecia a solidão. Todos os sonhadores padecem do mesmo.
“As pessoas não compreendem… Mais vale voltar-me para dentro.”
Apesar de toda a vida que carrega nos ossos, continua a percorrer as grandes cidades, a perder-se propositadamente, no intuito de conhecer-lhes a essência.
Sabe pormenorizadamente as pessoas. Adivinha-lhes a vida pelo rosto.
Conhece as piores tabernas de Paris. Os becos de Amesterdão. A melancolia de Lisboa.
E assim construiu a sua casa, nas mais célebres capitais europeias, nos mais reles motéis e residenciais, na amargura das ruas e decadência dos estabelecimentos.
Os dias atravessam-no numa serenidade compacta.
Costuma usar o mesmo casaco verde musgo, o mesmo relógio, a mesma expressão cordial e ausente, dia após dia.
Os luxos não preenchem uma alma tão grandiosa. Ou tamanho desejo de declinação.
“Não ignoro a beleza – argumenta – acontece que o horror me cativa mais”.
Deitamo-nos lado a lado, sem nos tocarmos, fitando o quarto no silêncio, atentos às exageradas sombras dos móveis. Costumo ouvir-lhe as longas meditações nocturnas, pressinto-lhe a ansiedade de partir para Madrid…
Alimento este deserto.
Admiro e respeito os pássaros – toda a sua ânsia de liberdade, de voos eternos…
Certa manhã deixou o motel, bebeu um copo de vinho tinto algures e seguiu para a estação do Rossio.
Beijei-o no resguardo dos pensamentos e despedi-me sem tristeza do casaco verde musgo.



Raquel Dias


edgar degas, autoretrato - 1855

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