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16 de agosto de 2011

Gabito

E eis que me deparei com uma passagem do livro “Olhos de Cão Azul” que apesar de me ter atormentado exerceu um estranho fascínio:

(...)
" Se pudesse chegar até à despensa e... Mas em que estava ela a pensar? Ficou surpreendida. Nunca sentira "aquele" desejo. A urgência da acidez debilitara-a, tornando inútil a disciplina que seguira fielmente durante tantos anos, desde o dia em que enterraram "o menino". Era uma parvoíce, mas tinha nojo de comer uma laranja. Sabia que "o menino" tinha subido até às flores de laranjeira e que os frutos do próximo Outono estariam inchados com a sua carne, refrescados com a tremenda frescura da sua morte. Não, não podia comê-las. Sabia que debaixo de cada laranjeira havia um menino enterrado que adoçava os frutos com o cálcio dos seus ossos.
Não obstante, agora tinha de comer uma laranja."


Confesso que ultimamente as laranjas têm-se afigurado um tanto... mórbidas.
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