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18 de outubro de 2012

Ideias emprestadas – René Descartes

E fiquei retida nesta ideia emprestada: de facto, como é que se pode justificar toda uma existência através da consciencialização do pensamento? Se é que o pensamento existe, se é que a existência é real.
Em tempos aceitei Descartes como quem aceita uma pastilha, sem ponderar se efectivamente me apetecia ruminar a substância pegajosa e impregnar a boca de um perfurante mentol ou extra sacarino tutti-frutti; aceitei porque soava bem, parecia fazer sentido. Depois porque se tratava de um filósofo de renome, uma figura essencial na Revolução Cientifica, enfim, pelas razões aparentemente suficientes para uma estudante de secundário que carece de, entre muitas coisas, informação e instrução para contestar o que se lhe ensinam em jeito de dogma.
Hoje, não muito longe da adolescente ignorante que fui, creio que possuo um sentido crítico desenvolvimento e até uma capacidade - algo irritante, admito - de desacreditar.
Contudo o dito senhor nunca mais me passou pela cabeça. Andei metida com Epicuro, recentemente com Schopenhauer, meio às apalpadelas numa sala escura, no intuito de apaziguar a minha aguçada curiosidade, ou sede de conhecimento, ignorando o que outrora me fora sugerido por Descartes: a resposta à minha própria existência.
Até que ainda esta tarde, Cogito, ergo sum saiu da minha própria boca. Voltei a aceitar a pastilha que Renatus Cartesius me estendia, sem meditar por um segundo no que acabava de proferir. [Provavelmente não existi nessa fracção de segundos.]
Descartes foi um dos nomes eleitos para a tertúlia: "como pôde um filósofo desta categoria satisfazer-se com uma resolução tão medíocre e abstracta?" Adoptei esta refutação como minha. Explicaram-me que o cogito é uma intuição racional, uma evidência - mas como posso assentir tal ideia? Como posso certificar-me de que o que penso brota em mim através de algum processo ímpar e puramente individual? Quem me garante que não existe uma espécie de manipulação? E se estiver imersa numa alucinação, quiçá numa ilusão?
E quanto à questão do próprio eu? Como sugeriu Nietzsche, "pensa-se, logo há alguma coisa que pensa” - mas quem é este agente? Haja noção de que o pensamento surge quando quer, não necessariamente quando eu quero. Afigurasse-me difícil tratar uma hipótese algo vaga como verdade. Mas ainda assim, que percebo eu de filosofia? Talvez não possua uma noção inata de mim mesma…
De todos os modos, a conclusão fervilha sem cessar: quanto mais penso, mais questiono a minha própria existência.



Raquel Dias
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