Páginas

19 de outubro de 2012

"música da alma", disse.


Certo dia, sem meditar demasiado na questão, aludi à obra da banda islandesa Sigur Rós nos seguintes termos: música da alma
Entretanto já repeti vezes sem conta esta descrição. Aliás, se agora mesmo alguém me pedisse que descrevesse a banda e o seu trabalho, todo o sentimento ficaria condensado no dito termo mágico, que, à semelhança de uma imagem, aporta mais significados que os que à primeira vista se alcança. 
Mas o que é isso de “música da alma”? Para minha grande desilusão nunca ninguém me retorquiu tal pergunta… Por isso resolvi faze-la a mim mesma. 
Antes de mais, é surpreendente a quantidade de vezes que opinamos e criamos concepções sobre o que nos rodeia sem que o fundamentemos. Talvez porque raramente nos perguntam “o que queres dizer com isso?”, a mente habituou-se à superficialidade de tal modo que não procura traduzir o seu próprio impulso. Assoma-lhe um estímulo e a voz expele “música da alma” como se soubera explica-lo. Incluso, o tom com que o afirma é de facto seguro. 
Mas atenção – não me oponho. Até porque sou apologista do imediato, da autenticidade, quiçá do próprio impulso, que, em grande parte das vezes, serve como indicador de honestidade. 
Sinto, no entanto, que certas ideias devem ser exploradas e que se não há quem nos estimule a realizar a dita introspecção, devemos tomar iniciativa por conta própria.  

Os Sigur Rós são descritos como uma banda de post-rock, ambiente. Longe de ser perita em música, considero que “ambiente” poderá ser uma palavra-chave na decomposição do termo mágico.
Ao clicar no play, Ágætis byrjun transporta-me imediatamente. O destino é um mistério e raramente toma formas concretas; gosto de acreditar que viajo rumo ao âmago. A sensação é precisamente esta: respiração lenta, mãos frias, o pulsar do corpo estendido, depois o corpo ausente. Entra-se numa dimensão privilegiada. As pálpebras repousam e os aromas ausentam-se, o tacto apenas é sensível à própria pele – sinto um arrepio ao redigir estas palavras – fica-se só, bem no interior, bem no fundo. Isto perto do minuto seis, parece-me…
Quando a música termina e despertamos algo combalidos, apercebemo-nos de que temos um corpo, um espesso invólucro que se afigura forasteiro nos primeiros momentos. Chego a pensar, “se me olhasse ao espelho não me reconheceria nestes contornos”. É algo transcendente.
Os Sigur Rós têm certamente bases incríveis para construir músicas tão poderosas. Brotados da paisagem glacial e inseridos num país de sonhadores isolados, torna-se compreensível tanta sensibilidade. Para que se consiga produzir melodias tão flutuantes e perfurantes, um dos requisitos será certamente estar em comunhão com a Natureza, em contacto com a essência do mundo e de si próprio. Dai que seja música da alma. Cada nota surge como que impulsionada por uma força demasiado íntima e até ambígua. E a parte mágica é que ao escuta-los, a abstracção que sentimos leva-nos de encontro à nossa própria heima.

Música da alma, para a alma.


Raquel Dias


Enviar um comentário