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10 de dezembro de 2012

danças e contradanças


Por entre uma multidão encasacada, paquistaneses tentam impingir latas de cerveja e relações públicas pouco convincentes sugerem-nos as supostas melhores festas de Barcelona.
Evitando encontrões e distribuindo
no, gracias por toda a parte, perfuramos o bairro gótico rumo ao perfeito desconhecido, tendo como guia uma intuição pouco credível. Após alguns enganos lá demos com o sítio. Era um daqueles bares muito recónditos, camuflado pela velhice do bairro, onde apenas vai quem conhece as entranhas de Barcelona. Ou quem, no meu caso, tenha feito amizades no meio.

Deixei que me tatuassem uma clave de sol na mão direita e entrei, algo intimidada e absolutamente forasteira, no bar cujo nome não recordo.
De paredes revestidas de um intenso vermelho e sofás brancos de design moderno, o interior jamais se poderia adivinhar. E muito menos se esperaria que um local tão contemporâneo e algo fancy estivesse atestado de hippies e outros pseudo-qualquer-coisa (não tenho grande vocabulario para as tribos urbanas da moda). Para completar o leque de surpresas, foi-me oferecida a pior cerveja de que tenho memória. Mas face ao preço exorbitante dos cocktails e da vodka, as opções já estavam bastante restringidas à partida.Enquanto fumávamos um cigarro na rua traseira, a música começou a ressoar, frenética, divertida, invocando ao pé que se agitasse em sintonia.
Quando entramos, já a pista estava repleta de todo o tipo de casais improváveis que ostentavam de sorriso os seus absolutos – ou mesmo inexistentes – dotes de dança.
Sentada num dos cadeirões, detive-me numa longa e meticulosa observação. Dos pares bailarinos havia um que rapidamente se destacava: tratava-se de uma mulher, já madura, de calça de ganga e botas brancas, indubitavelmente sul-americana, que dançava a um nível – diria – profissional, cantarolando e sorrindo ao seu par, também de origens latinas, que poderia facilmente ser talhante no Raval durante o dia. Os dois rodopiavam alegremente em perfeita sintonia. Na minha inocência e ignorância diria que levam anos a ensaiar.
Por sua vez, os fulanos de rastas e calças rotas abanavam-se desconectados, cada um no seu perímetro invisível, enquanto bebericavam a maldita cerveja em câmara lenta.Um rapaz de longas barbas e óculos retangulares tentava ensinar a sua namorada – claramente na fase do eu faço tudo para te agradar – os passos elementares da salsa, com pouco sucesso, todavia. Ao meu lado, uma mulher incrivelmente parecida à Bellatrix Lestrange dançava sozinha de copo na mão, tropeçando ocasionalmente na própria saia e gargalhando para consigo num incompreensível catalão embriagado.Um dos casais com que eu estava sucumbiu à tentação e retomou os bons velhos tempos – ambos foram dançarinos profissionais – causando um alvoroço na pista; todos os observavam e aplaudiam.Nos sofás, parejas inexperientes e retraídas observavam o baile e desejavam saber dançar. Quase como eu. Uma rajada de inferioridade arrebatou-me durante alguns segundos quando me apercebi de que apenas um milagre me faria a dançar assim. Momentaneamente desanimada enviei uma sms a um outro amigo dançarino, tu, eu, aulas de salsa! mas rapidamente arrependi-me e compreendi que esta não é a minha praia. Ainda que aprecie o ambiente, a música, os movimentos, eu sou a pessoa que os filtra em palavras. Sou a voz na folha impressa, a crónica detalhada, a ironia, a apreciação... E também sou uma razoável dançarina nas discotecas comerciais junto à Marina, onde inevitavelmente acabei a noite.



Raquel Dias

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