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27 de dezembro de 2012

morta ou adormecida


A cidade estará morta ou adormecida?

Exactamente à 1:30 da madrugada, uma rotunda fora de mão obrigada ao exercício dos braços, pulsos, dos dedos dançantes, os vidros estão embaciados, as janelas entreabertas, faz um pouco de frio, aquele frio demasiado suave a precioso, a ponte está iluminada, e a cidade, terá mesmo morrido sem que ninguém reparasse?

1:45, deambula um homem de estatura média e casaco preto pela avenida, a bomba de gasolina está aberta, o semáforo fica vermelho. Espero, deixo-me entrelaçar na espera, correspondo a música à noite, a noite à ausência, que é da vida por estes lados, como pôde esta gente ser tão descuidada…
Fica verde, mantenho-me, observo, será paz, será morte, que ideias indeterminadas, sou uma outsider que tenta reintegrar-se – e pouco me esforço – retomo o caminho desajustado, a longa avenida em sentido contrário, não pretendo nada ao certo, mas instigo…
Uma outra ponte deserta, cantos obscuros e alguma vegetação disforme. 
Ao longe um ténue nevoeiro electrifica-me num arrepio, imagino o mar, a densa mancha negra de contornos incertos – quantas vezes se mistura com o céu – em parte, a minha mocidade, aquela inocência que não volta mais…
E como eu gostei, em tempos, da areia quente, das rochas recortadas, da calçada desordenada, deste e daquele sítio preciso, e desta e daquela pessoa…
Esta noite tudo se distancia, é de uma leveza que mais diria irreal. Atravesso a cidade apagada, as ruas de sempre, os edifícios, até o fraco arvoredo. Conheço-os e não reconheço qualquer empatia.
Num rápido fragmento questiono: estará morta ou adormecida? sabendo no entanto que a hora não é desculpa. O inverno não é desculpa.
Não há justificação plausível, a culpa é minha, que a matei sem piedade, certo dia, no meu âmago.


Raquel Dias


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