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18 de dezembro de 2012

primeira pessoa


Escrever na primeira pessoa arrecada muita responsabilidade.
É um alívio para o escritor vestir a pele dele ou dela, dessas personagens cujos nomes não interessam; o distanciamento patente na conjugação do verbo é suficiente.
Agora detenho-me na indecisão fatal: como posicionar-me para prosseguir este texto?

(aparentemente a resposta já foi dada ainda que inconscientemente) 


Abordando esta questão, creio que (e segundo a minha humilde experiência) deve existir um mínimo de veracidade comunicativa – mas não me perguntem como fazer a dosagem. 
E atenção, não se entenda veracidade como verdade, e muito menos se delimite o conceito de forma estrita. 
Haja noção de que o “eu” é bastante estratificado e estilhaçado, não sendo de modo algum absoluto. 
Além de que o absoluto exclui a ideia do infinito, e isto é algo que não se pode conceber quanto à identidade, que é múltipla e passível de alterações continuas (ainda que sejam apenas superficiais).
Não obstante, e para complicar um pouco mais a coisa, nenhum “eu” pode ser neutro.
A neutralidade é utópica, um mito. Poderá sim existir conformismo, sobretudo quando relacionado com posturas aparentemente sedimentadas. 

O “eu” é complexo, disperso ainda que unificado. Então como tomar responsabilidade por algo sobre o qual pouco sabemos e pouco desejamos determinar?
Relembro ao leitor que esta reflexão recai sobre o Eu literário. O mais desconhecido e duvidoso de todos os pronomes pessoais, e definitivamente aquele sobre o qual recai mais encargo.
Escrever na primeira pessoa, tomar as palavras como absolutamente minhas e logo transparentes é uma loucura. Pense-se, quanto desta suposta transparência não será fruto de um meticuloso processo de filtragem?Quanto de mim existirá no Eu ao final de uma linha?
Ao leitor tudo parecerá certamente mais óbvio e não tão intrincado; mas deixem-me advertir que eu também sou um personagem. Eu também sou uma mentira.
Escrever é um jogo, um labirinto, um terreno nubloso, onde não se conhecem limites ou saídas concretas. 
Realidade inserida na ilusão e vice-versa. Um mundo às avessas.
Não se deixem ludibriar por um pronome. 
Não comprometam o autor.



Raquel Dias
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