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14 de maio de 2013

How i met... Paulo Coelho

Sem saber ao certo como ou porquê, desenvolvi uma estranha repulsa pelo popular autor brasileiro Paulo Coelho. Não sei se se na origem estariam as terríveis capas que a Pergaminho fez - e aqui estou eu a julgar um livro pela aparência, que coisa feia - se pelos títulos pouco sugestivos como "Diário de um mago", ou se pelo facto de algumas criaturas da minha turma de secundário afirmarem que o haviam lido, (o que me causava uma aversão automática, pois dada a inteligência dos indivíduos em questão, Paulo Coelho não poderia ser um génio da literatura...); o certo é que não, não queria ler. Depois, com o triunfo do facebook chegaram os faz-de-conta-que-li-e-que-sei, que começaram a postar frases - geralmente sobrepostas em imagens de uma estética penosa - supostamente ditas por celebridades e claro... quem haveria de ser um dos contemplados? o querido Paulo Coelho.
Isto devastou por completo a pouco credibilidade que, na minha perceção, o escritor tinha. Ora eu pergunto: alguma vez viram essas macacadas feitas com frases/fotos de autores como Maquiavel, Gustave Flaubert, Voltaire ou Dostoiévski? Exatamente. Eu confesso que padeço de uma certa "mania" de julgar as coisas por quem lhes acede. Ou pela popularidade que adquirem nas massas. Este é um motivo pelos quais eu odeio Nicholas Sparks e todos os autores que se apoiam em dramas corriqueiros para forçar a lágrima mais que previsível. O público geral, e especialmente as donas de casa sem grandes aspirações ou inquietações - essas que agora leem E. L. James - vêm nestes escritorezinhos algo muito profundo. Não. Aqui não há sequer um centímetro de profundidade. Experimentem ler Kafka, Camus ou Clarice Lispector.
(E com isto já me desviei do assunto...)
Para sustentar a minha opinião sem fundamentos decidi pesquisar o que se diz sobre o autor brasileiro. Encontrei críticas, artigos, fóruns de leitores, enfim... Informação aparentemente interminável. E para minha "alegria" li títulos como "Essa mediocridade chamada Paulo Coelho". O meu instinto parecia não falhar-me até que o impensável aconteceu: ofereceram-me um livro do Paulo Coelho. A pessoa em causa não conhece o meu gosto literário e está longe de sequer suspeitar desta minha antipatia pelo autor. Mar o mais curioso é que, segundo me contaram, a escolha deste livro foi tudo menos aleatória. Esta pessoa queria oferecer-me um livro e, sem saber ao certo que temas me interessavam, decidiu informar-se junto de uma grande amiga minha. Esta amiga por sua vez disse "oferece-lhe algo sobre a morte". Definitivamente não sei que ideia ando a transmitir às pessoas que me rodeiam. Mas julgo que isto está diretamente relacionado com aquela vez em que eu saí de casa apressadamente na esperança de ver o cérebro de um suicida que estava no meio da estrada. (quando lá cheguei já o corpo e o órgão já estavam cobertos... snif snif) Anyway. Quando dita pessoa se confrontou com o título "Verónica decide morrer" pensou, jackpot. Eu agradeci e admiti que tinha alguma curiosidade, sem mencionar, JAMAIS, o que realmente me passou pela cabeça: "não vou ler."
 Mas como eu sou a pessoa mais contraditória do mundo, acabei por levar o livro na mala e decidi dar-lhe uma oportunidade enquanto me deslocava para o trabalho. Manhã após manhã, a coisa foi-se tornando interessante...
Agora vejo-me obrigada a retirar tudo o que disse e pensei. Em certa medida. O facto é que este senhor não é definitivamente um génio da literatura. A ideia do livro é muito interessante e capaz de prender até pessoas pretenciosas como eu. Mas em termos de escrita, nada de fenomenal. Este facto fez-me repensar a minha própria forma de julgar a literatura. Afinal o que é mais importante, o formato ou o conceito? Será que podemos ter uma sem a outra e garantir uma obra de qualidade? Seja qual for a resposta, a verdade é que este livro me tem vindo a deliciar. Não só pela trama repleta de personagens peculiares, ou pela bonitinha mensagem que roça o "carpe diem", mas sobretudo porque tenho encontrado semelhanças alucinantes entre esta ficção e a minha realidade.
 O ritmo cardíaco de Marí, Zedka e as suas viagens astrais, cujas descrições estão em perfeita concordância com as recentes confissões de uma amiga, as preocupações, desilusões, medos e anseios profundos...
O tema principal do livro é o valor da vida; contudo, este é apenas o centro de um turbilhão de ideias bastante complexas, que, apesar de não estarem exploradas a um nível arrebatador, sugerem o suficiente para que se fique com uma pedra no sapato.
Talvez o encanto do livro seja mesmo esse, o espaço que o leitor recebe para fazer as suas próprias divagações...
Aquele típico conselho de "nunca digas que desta água não beberás" aplica-se perfeitamente nesta minha história. Pode parecer uma conclusão bastante elementar, mas no meu caso específico, foi uma bofetada bem merecida.



Raquel Dias
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