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2 de agosto de 2013

gato de olhos revirados

Poucas coisas me provocam um pânico semelhante ao de ver a minha gata dormir de olhos revirados. Já sei que é normal, que é porque está num sono profundo, etc… No entanto, por muito consciente que seja da naturalidade deste pormenor, a verdade é que sou incapaz de assistir e manter-me quieta. Abano-a com toda a força até que desperte – não é um processo tão automático quanto seria de esperar - e fico atónita durante a fração de segundos em que assisto ao seu regresso à realidade. Ou à vida. Porque mais parece que está a ressuscitar: a pupila faz um movimento estranho enquanto os pulmões recebem uma espécie de sopro da vida. Creepy
Hoje isto aconteceu duas vezes, praticamente seguidas! Ninguém pode imaginar o aperto no meu coração. O meu pai dizia-me, Deixa-a dormir, Raquel, e eu argumentava que não podia, não assim. Fiquei a observa-la de perto sem prestar devida atenção ao filme. Tinha de garantir que, pelo menos durante a minha presença, ela não voltava a pender para o universo paralelo. 
O pobre animal observava-me aturdido e eu senti-me uma torturadora por estar a priva-lo do ansiado descanso. Desculpa. Mas tens mesmo de fechar os olhos. 
Lembrei-me que o meu primo também fazia isto quando era bebé. Assustei-me de morte quando o vi adormecer de olhos revirados pela primeira vez. A minha tia tranquilizou-me, Está a ter um sonho muito profundo, mas a mim parecia-me que estava a roçar um transe fatal. Tive de conter-me para não dar-lhe um safanão. Ai que horror, resmunguei, imagine-se o trauma que não foi, para ainda recordar este episódio tão nitidamente… 
Agora questiono-me se eu alguma vez fiz isto. [Tenho de sondar os meus pais...]
Nos últimos tempos convenci-me de que era o ser mais tranquilo do mundo a dormir… Aparentemente estava equivocada, já que recebi queixas de falar idiomas demoníacos e imitir sons orgásmicos. Mas é culpa do Verão, a sério que sim. E como Agosto é oficialmente o mês das insónias, alegro-me de não partilhar a cama com ninguém durante estas férias. 
Somente com a gata. Torturamo-nos mutuamente e lá nos entenderemos…


Raquel Dias



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