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16 de outubro de 2011

o candeeiro à espera, o papel à espera

O candeeiro à espera, o papel à espera, a caneta de tinta preta.
Duas mãos, belas e vazias, ancoradas no silêncio ronronante de mais uma tarde.
Escrevo, apago, não escrevo, debilito-me.
Os olhos inflamam-se e ainda nem escureceu.
Talvez devesse pegar na máquina e sair por ai disparando flashs oportunos aos desconhecidos. Na realidade abomino a luz artificial. E no meu quarto provisório não há raio de sol que entre.
Entretanto passa das 19:00. Escrevo, não escrevo, já bocejo porque sim.
Tudo é maravilhoso, tudo é vazio, tudo tem potencial mas torna-se indiferente sempre que te imagino a atravessar a rua em minha direcção.
E aqui estou, posicionada estrategicamente para que não me doa mais o pescoço.
O candeeiro à espera, o papel à espera, a caneta…
Talvez um cigarro ajudasse. Talvez tenhas um ai à mão.
Que tremenda injustiça esta de escrever sobre ti! A nudez não é mútua, nunca foi, mas não consigo evitar sentir-me atropelada.
Inédito ainda é ser capaz de saborear a violência que irrompe do meu contentamento, como se se tratasse de um suculento fruto decomposto.
Sinto-me outra vez demasiado contraditória. Um cigarro.
Escureceu entretanto. Como pude deixar-me ficar retida nos teus passos apressados a atravessar a rua?
Fala-se de muita coisa para lá da janela. Aqui não existe assunto. Algo morreu-me durante a madrugada. E os olhos inflamam-se, ansiosos por um pouco mais de ti.



Raquel Dias
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